Volkswagen Magazine

Inovação

Como harmonizar seu tanque flex.

A história, as dúvidas, os mitos: um especialista explica tudo o que move o universo destes carros.

Texto Débora Yuri
Ilustrações Victor Goularte

Quem diria. Foi uma curiosa expressão derivada do inglês – o “rabo de galo” ou “cock tail”, na sua versão original – que impulsionou o desenvolvimento dos carros Flex no Brasil.

Tudo começou no início dos anos 2000, quando o preço do petróleo estava alto. Para economizar, muitos motoristas começaram a abastecer seus veículos com uma mistura de gasolina e etanol. Como estava sobrando no mercado, o álcool nos postos custava uma pechincha. A esse popular “batizado” de combustíveis deu-se o nome de rabo de galo.

“O problema é que, depois de rodar assim por 5 mil quilômetros, a bomba de combustível parava e o automóvel ficava no meio da rua”, lembra o engenheiro mecânico Roger Guilherme, Gerente de Conceitos Powertrain da área de Desenvolvimento do Produto da Volkswagen do Brasil. Esse truque, entretanto, abriu os olhos da montadora para um aparente conflito: os consumidores queriam usar etanol, mas, por incrível que pareça, os carros a álcool não tinham demanda nas lojas.

Em março de 2003, a Volkswagen lançou o primeiro carro Flex do País, o Gol 1.6 Total Flex. E aí uma verdadeira revolução atingiu o mercado. Nos cinco anos seguintes, houve uma corrida para transformar em Flex toda a linha. Hoje, a tecnologia é dominante e responde por mais de 90% da produção brasileira da companhia, em volume. 

A história dos veículos flex também remete a um trauma nacional. Quando os países árabes deixaram de fornecer petróleo barato ao mundo ocidental, em 1973, o governo lançou o Proálcool – um programa de incentivo ao uso do álcool, mais barato que a gasolina, na época importada. A montagem em grande escala desses veículos começou na década de 1980; ao seu final, quase 100% da frota fabricada no País tinha motorização a etanol e toda a infraestrutura para sua produção e distribuição estava montada.

Mas, nessa época, o preço do açúcar subiu, e as usinas não queriam mais produzir álcool. “Eu dirigia o meu primeiro carro. Era preciso ficar em filas intermináveis nos postos ou rodar a cidade inteira para encontrar etanol”, lembra Guilherme. Os modelos que usavam o combustível acabavam sobrando nos pátios. “O trauma da escassez de álcool foi marcante e fez toda a cadeia produtiva voltar à gasolina. Aí, o preço do petróleo voltou a subir, surgiu o ‘cock tail’ e a história mudou de novo, mostrando que as pessoas desejam usar álcool, sim – mas sem correr o risco de investir em um carro a álcool.” Percebendo isso e dispondo da tecnologia da injeção eletrônica digital, capaz de diferenciar os combustíveis, a Volkswagen decidiu que era o momento de inovar, e iniciou a era do Flex no Brasil.

Atualmente, a montadora, para o mercado nacional, só desenvolve novos projetos com motor Flex, segundo o engenheiro, que integra a divisão responsável por motor e transmissão. Como um “sommelier de combustível”, ele esclarece a seguir as principais dúvidas dos consumidores sobre o universo dos carros Flex e o que os coloca em movimento – dos tipos disponíveis no mercado à harmonização com terrenos, performance, economia e meio ambiente.

Quais são os combustíveis indicados para carros Flex?

1 Etanol ou gasolina. O primeiro é um combustível hidratado, mistura de etanol e água – por especificação, o álcool encontrado nos postos deve ter cerca de 5% de água. Já a gasolina usada para abastecimento também é uma mistura, de gasolina e etanol anidro (sem água). Nesse mix, o percentual de etanol é definido pelo governo e atualmente está em 27% para a gasolina comum e 25% para a premium.


A ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) é responsável pela execução e fiscalização da política vigente, que depende da demanda do País por etanol no momento. 


Existem ainda carros movidos a diesel, mas, por lei, precisam carregar mais que 1 tonelada de carga ou terem características de “off-road”. Eles não se enquadram como “Flex”. Da oferta da Volkswagen do Brasil, apenas a picape Amarok tem motorização a diesel atualmente, além de caminhões da marca.

Qual deles é o melhor combustível?

2 De acordo com Guilherme, o melhor é o que foi desenvolvido, especificamente, para cada modelo. “Se um carro foi projetado para rodar com gasolina comum, use-a. Nós desenvolvemos veículos que dispensam combustíveis aditivados. O que importa não é o tipo, mas a qualidade.” E, nesse quesito, infelizmente muitas alterações são difíceis de detectar, como misturas com solventes e aumento do nível de etanol na gasolina. A dica é abastecer em postos que o motorista frequenta com assiduidade e que nunca deram problema em relação ao combustível

Como optar por um ou outro?

3 Dois fatores pesam: economia e preservação do meio ambiente. Do ponto de vista econômico, basta comparar os preços. A conta é simples: se a divisão do valor do etanol pelo da gasolina for abaixo de 0,7, vale a pena escolher o etanol; se ficar acima, opte pela gasolina.


Existe também a decisão por questões ambientais, já que o etanol é um combustível “verde”. “Sempre que abastecer seu carro com álcool, você estará contribuindo para a diminuição da emissão de CO2 (gás carbônico), cujo acúmulo na atmosfera é responsável por transformar o planeta em uma estufa gigante, causando o aquecimento que gera mudanças climáticas que já estamos vivendo”, frisa o especialista.

Quais são os prós e contras de cada?

4 Como já foi dito, o etanol tem a seu lado a vantagem ambiental, uma vez que gera um ciclo fechado, quase neutro de carbono. Alguns o chamam, inclusive, de “combustível solar”. Isso porque o gás carbônico emitido é usado novamente pelas plantas (a própria cana-de-açúcar, por exemplo) para seu crescimento, via fotossíntese. A gasolina, por outro lado, é um derivado do petróleo, o qual é retirado debaixo da terra (ou do fundo do mar). Os gases resultantes da sua queima permanecem na atmosfera para sempre, nunca retornando à sua origem.

Qual deles oferece melhor performance?

5 Em geral, os motores têm um desempenho ligeiramente melhor com o etanol, podendo chegar a 10% em alguns modelos. E isso terá efeito em todos os aspectos, como velocidade máxima, aceleração de 0 km/h a 100 km/h e retomadas da velocidade sem a troca de marcha.

A mesma quantidade de gasolina e de etanol permite que eu rode a mesma quantidade de quilômetros?

6 Não. Um carro roda cerca de 30% a menos com etanol do que com gasolina, porque ela tem mais energia por litro do que o álcool.

Na estrada,
na cidade, no
trânsito: existe
o combustível adequado para “harmonizar”
com cada tipo
de terreno?

7 A única diferença se dá na estrada, porque o motorista será obrigado a parar mais vezes para abastecer com etanol. “É o mesmo dilema que vemos, às vezes, na Fórmula 1: vale a pena parar para trocar o pneu?”, compara Guilherme. “O etanol tem desempenho e a gasolina, alcance.”

É necessário variar o combustível?

8 Às vezes. Nos carros da Volkswagen, quando isso é necessário, está registrado no Manual do Proprietário. “É importante ler o manual porque cada modelo teve o seu desenvolvimento específico”, ele explica. No caso do Golf 1.4 TSI, por exemplo, existe a recomendação de abastecer com gasolina a cada 10 mil quilômetros rodados, para reduzir contaminantes no filtro de combustível.

» HOJE, A TECNOLOGIA FLEX É DOMINANTE
E RESPONDE POR MAIS DE 90% DA PRODUÇÃO BRASILEIRA DA VOLKSWAGEN.
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E misturá-los? Isso é recomendável?

9 Para o engenheiro, não vale a pena abastecer o carro com misturas de etanol e gasolina. “Quando fazemos um carro Flex, ele está preparado para receber os dois combustíveis separadamente. E nenhum deles danifica o motor: já são quase 14 anos de produção de Flex no Brasil, fora o tempo destinado à pesquisa.”

No inverno, é preciso rodar sempre com um pouco de gasolina no tanque?

10 Não é necessário, mas ela pode ajudar a dar a partida quando está frio, se o motorista tiver dificuldade de lembrar de abastecer o chamado “tanquinho”. Para a combustão acontecer, é preciso haver primeiro evaporação do combustível. Como o etanol não evapora tão facilmente quanto a gasolina, é mais difícil dar partida no motor em baixas temperaturas usando álcool.


Para resolver o problema, todos os modelos MPI Flex da montadora contam com um sistema auxiliar de partida. Este pode ser um tanque auxiliar de gasolina (“tanquinho”), que atua como um aditivo para evaporação durante a partida. Mas em 2009, a Volkswagen lançou uma inovação que também virou tendência no mercado nacional: o aquecimento prévio do etanol. Com isso, muitos de seus modelos dispensam hoje o “tanquinho”. Já o motor TSI, que está para a tecnologia de motores como um smartphone de última geração está para a tecnologia de telefones, foi lançado na versão Flex pela Volkswagen em 2015 e, por utilizar injeção de combustível em altíssima pressão (que facilita a evaporação) diretamente na câmara de combustão, dispensa o uso de qualquer sistema auxiliar de partida.