Volkswagen Magazine

O piloto Daniel Abt na manhã antes da corrida: a discussão é sobre os retoques finais no carro.
O volante mostra o status da bateria do carro de corrida – no momento ele registra 84%.

A pista de corrida ainda está suja. Devido a alguns problemas, o carro não está dando a partida corretamente. Daniel Abt e sua equipe de engenheiros inclinam-se sobre seus laptops. Os dados da primeira sessão de treinos livres surgem nas telas: o piloto ainda não está totalmente satisfeito. “O concorrente foi dois segundos mais rápido”, diz o rapaz de 22 anos. No boxe ao lado, os mecânicos trabalham a todo vapor. Os carros de corrida passaram cinco semanas dentro de contêineres ferroviários viajando do Reino Unido para a China, passando pela Rússia, e, nesse período, as rodas enferrujaram-se levemente. Os cubos das rodas não se encaixam mais e agora precisam ser revestidos com graxa. A algumas tendas de distância, a equipe concorrente tem preocupações bem diferentes: os motores ainda estão parados na alfândega. Sexta-feira à noite, faltando 21 horas para a corrida. A noite vai ser longa.


É o início da temporada de Fórmula E em Pequim. O piloto Daniel Abt e a equipe de corrida Allgäuer ABT Schaeffler Audi Sport estão competindo pela segunda vez. Enquanto a contagem regressiva já começou nos boxes, a estrutura de fios entrelaçados do “Ninho de Pássaro” brilha ao fundo, em um vermelho chamativo – o circuito de corrida tem forma quadrada, mede 3.439 metros e corre em torno do Estádio Nacional Olímpico, construído por Herzog & de Meuron.

“É um ótimo lugar, mas não é exatamente o meu circuito favorito”, diz Abt, rindo. Ele recorda a temporada inaugural no ano passado, que também estreou em Pequim: supercorrida, tudo transcorreu tranquilamente e Abt terminou em terceiro lugar. Então, no caminho para o pódio, um choque. As medições revelaram que ele tinha usado 0,1 quilowatts-hora a mais do que o permitido. O máximo prescrito era de 28. Abt foi desclassificado.


Isso não teria acontecido na Fórmula 1 ou em qualquer outra série de corrida convencional, uma vez que não há limites de consumo de combustível. Até agora, sustentabilidade e automobilismo pareciam contraditórios. Mas não na Fórmula E, a primeira série de corrida elétrica do mundo. Aqui, a sustentabilidade faz parte do conceito central, desde os motores elétricos até o nome da corrida (“ePrix”), passando pelos regulamentos que preveem economia de energia. O calendário da temporada foi concebido de tal forma que todo o equipamento dos times se move de uma corrida para outra sempre na direção leste ao redor do globo – nunca de avião, mas em navios de carga e sem fazer qualquer escala em seus países de origem. Isso gera economia tanto de energia quanto de custos. O orçamento dessas equipes de corrida é um centésimo do da Fórmula 1.

Circuito de corrida

O circuito de Pequim tem 3,439 quilômetros, conta com 17 curvas, e foi concebido pelo designer Rodrigo Nunes. A primeira corrida foi realizada aqui durante a temporada 2014/15. O percurso segue o sentido anti-horário em vias públicas ao redor do Estádio Nacional de Pequim, que os chineses carinhosamente batizaram de “Ninho de Pássaro”.

“A Fórmula E é um evento automotivo completamente novo e que tem a sua própria filosofia”, diz o professor Peter Gutzmer, Membro do Conselho Executivo e Chefe do Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento da Schaeffler AG. O fornecedor do automóvel é o parceiro de tecnologia da ABT na Fórmula FIA E Championship, e a Volkswagen é a parceira estratégica da equipe. Em contraste com a Fórmula 1, na Fórmula E existe transferência de tecnologia de carros de competição para modelos reais. O objetivo é avançar o desenvolvimento do carro elétrico do futuro.


Os engenheiros de Gutzmer recentemente passaram oito meses trabalhando em uma nova unidade. O executivo está agora cuidando dos preparativos finais em Pequim com muita ansiedade. Se o carro de corrida passa pelo teste na pista, a nova tecnologia poderia ser encontrada, em poucos anos, nos veículos produzidos pela Volkswagen.

Fãs de todas as partes da China viajaram a Pequim para assistir à corrida de abertura da Fórmula E.

Foi um sucesso incrível e inesperado quando a primeira série de corrida internacional para carros elétricos fez a sua estreia no ano passado. Ninguém havia apostado em tal resultado. Centenas de milhões de telespectadores em todo o mundo assistiram à corrida na televisão e quase 400 mil fãs estiveram presentes nos circuitos urbanos em Buenos Aires, Miami, Berlim e Londres, entre outros. Especialistas em automobilismo já reconhecem que a Fórmula E poderá em breve tornar-se mais bem-sucedida que a Fórmula 1.


Sábado, oito da manhã. O sol nasce sobre o Estádio Olímpico. Os primeiros visitantes chegam ao local e passeiam pelo “eVillage”, onde os fabricantes de automóveis e produtores de eBikes e eScooters já armaram suas tendas para apresentar suas tecnologias inovadoras. O fato de o início da temporada da Fórmula E ser em Pequim tem também um caráter simbólico. A China não é apenas o maior mercado de automóveis do mundo, mas também um laboratório futuro para a mobilidade elétrica. Aqui, scooters impulsionadas eletricamente já são parte do dia a dia urbano há mais de uma década.

Nesta manhã, visitantes curiosos têm algum tempo antes da sessão de qualificação para testar as últimas eMobiles. Wang Chao, 28, e sua esposa Dun Xiangshen, 24, que moram do outro lado da cidade, chegaram cedo em seu Volkswagen Polo prata. “Nós podemos muito bem nos imaginar dirigindo um carro elétrico dentro de alguns anos”, diz Wang. Esta é a primeira vez que ele e sua esposa participam de uma corrida automotiva. O mesmo pode ser dito de vários espectadores hoje. O público é jovem. Muitos vieram com seus avós e filhos.

Daniel Abt autografa bonés brancos de fãs.
Seu pai, Hans-Jürgen Abt, numa entrevista para a televisão.
Carro de corrida no circuito de Pequim. Ao fundo: o Estádio Olímpico, que os chineses chamam de “Ninho de Pássaro”.

Volkswagen na Fórmula E

Lançada por Jean Todt em 2014 a Fórmula E é realizada em dez circuitos urbanos em todo o mundo – incluindo Londres, Long Beach, Berlim e Buenos Aires. Os motoristas das dez equipes incluem ex-pilotos de Fórmula 1, como Jacques Villeneuve e Nick Heidfeld. Como parceira estratégica da equipe de corrida ABT Schaeffler, a Volkswagen fornece suporte e, dessa forma, segue com o seu papel pioneiro na mobilidade elétrica. Com seus modelos puramente elétricos (e-Golf, e-up!) e seus híbridos plug-in (Golf GTE, Passat GTE), a Volkswagen tem a maior gama
de produtos de unidades elétricas.

Atrair um público urbano e não apenas fãs de automobilismo faz parte do conceito Fórmula E. Para participar do evento, não é preciso necessariamente gastar muito com viagem e alojamento, porque as sessões de qualificação são realizadas no mesmo dia da corrida, e sempre em circuitos provisórios no centro da cidade. Em Londres, os pilotos dirigem através do Battersea Park. Em Berlim, a pista passa pelo antigo aeroporto de Tempelhof. E, na Califórnia, segue os trechos de areia de Long Beach. Ninguém precisa se preocupar com seus tímpanos – esses novos foguetes elétricos correm pelas pistas produzindo apenas 80 decibéis. Alguns têm um zumbido de mininaves espaciais, outros parecem chaleiras pouco antes de atingir o ponto de ebulição.

Para o piloto, esta é uma experiência totalmente nova. De volta ao pit, Abt descreve a atração especial da Fórmula E. “É importante não apenas acelerar, conduzir e frear no momento certo. Gestão de energia e direção inteligente também são essenciais.” Abt praticamente nasceu no automobilismo. Seu pai, Hans-Jürgen Abt, é chefe da sua equipe, e seu filho participa de fórmulas desde os 15 anos. O carro elétrico exige que ele adote um novo tipo de condução inteligente. Será que vale a ultrapassagem em plena aceleração com pouca bateria? Ou seria melhor economizar energia e esperar até a próxima curva, quando os outros também estiverem com menos potência?

»Gerenciamento de energia e direção inteligente também são essenciais.«

Daniel Abt, piloto de corrida

A bateria do tamanho de uma mala pesa 320 quilos e é o coração e a alma do carro. Tal como acontece com smartphones, o maior problema é a curta vida útil. Totalmente carregada, dura apenas 30 minutos, que é a metade de uma corrida. A recarga, no entanto, leva 15 minutos. A solução é simples: usar dois carros. Para as 26 voltas que precisam ser concluídas em Pequim, isso significa fazer um pit stop após 13 voltas, sair do primeiro carro, entrar no segundo, colocar de novo o cinto de segurança e partir.


A sessão de qualificação acabou. Abt vai partir em 11º lugar, e seu companheiro de equipe, o brasileiro e ex-piloto de Fórmula 1 Lucas di Grassi, em quarto. Tempo para fazer uma pequena pausa, realizar verificações de última hora no carro e assinar alguns autógrafos. Ainda que quase nenhum dos fãs em Pequim conheça o nome dos pilotos, eles são vistos como estrelas.

O piloto brasileiro Lucas di Grassi passa pelo meio da multidão.

Em contraste com outras competições, na Fórmula E é o piloto que decide a corrida, em vez da tecnologia. Para estabelecer condições justas e manter as barreiras baixas, todos os times correram com carros idênticos na temporada inaugural. Neste segundo ano, as equipes são livres para escolher seus motores, engrenagens e sistemas de resfriamento. Algumas estão agora usando dois motores elétricos em vez de apenas um, outras apenas duas engrenagens em vez de cinco.

No pódio dos campeões (da esquerda para a direita): Lucas di Grassi (segundo lugar), Sébastien Buemi (primeiro lugar) e Nick Heidfeld (terceiro colocado).

Nas próximas temporadas, haverá mais mudanças graduais. Em seguida, as equipes também poderão desenvolver suas próprias baterias. “O objetivo é ser capaz de fazer o circuito completo com apenas um carro na quinta temporada”, diz o líder, Hans-Jürgen Abt. Quem sabe o que o futuro reserva? Talvez, em algum momento, os carros corram sobre uma pista de indução, que carregue as baterias durante o circuito.

 

Mas ainda há um longo caminho a percorrer. Às 17:05, a cerimônia de premiação acontece no pódio. Lucas di Grassi conquista o segundo lugar, e o piloto da Renault Sébastien Buemi é o vencedor. Daniel Abt estava terminando em oitavo lugar quando perdeu sete segundos valiosos durante o pit stop. Ao mudar para o segundo carro, o cinto de segurança não se prendeu, entre outras coisas. No entanto, foi o suficiente para atingir o nono lugar. O time ganhou 20 pontos hoje, o que é um bom começo. Daniel Abt já está pensando na próxima corrida. “O balanceamento do carro ainda não está correto, precisamos trabalhar nisso”. Depois de uma reunião imediata, eles comemoram. Hora de relaxar e de se livrar da adrenalina. Kuala Lumpur os aguarda em duas semanas.

“Após a corrida” se torna “antes da corrida”: mais nove competições os aguardam depois do início da Fórmula E em Pequim.